{"id":3064,"date":"2026-03-30T11:20:11","date_gmt":"2026-03-30T11:20:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdomariocarvalho.top\/?p=3064"},"modified":"2026-03-30T11:20:11","modified_gmt":"2026-03-30T11:20:11","slug":"cpmi-do-inss-e-a-oitava-a-terminar-sem-relatorio-desde-2004","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdomariocarvalho.top\/?p=3064","title":{"rendered":"CPMI do INSS \u00e9 a oitava a terminar sem relat\u00f3rio desde 2004"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Sem aprovar um texto final, CPMI que investigou descontos indevidos em benef\u00edcios do INSS repete destino de outros colegiados marcados por impasse e disputa pol\u00edtica. Veja quais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O desfecho da CPMI do INSS,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.congressoemfoco.com.br\/noticia\/117666\/cpmi-do-inss-derruba-relatorio-de-alfredo-gaspar-por-19-a-12\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">encerrada sem relat\u00f3rio final aprovado<\/a>, est\u00e1 longe de ser um caso isolado no Congresso Nacional. Embora incomum, esse tipo de desfecho j\u00e1 atingiu investiga\u00e7\u00f5es da C\u00e2mara, do Senado e do pr\u00f3prio Congresso em momentos distintos e sob contextos variados. De acordo com levantamento do<strong>&nbsp;Congresso em Foco<\/strong>, esta foi a oitava comiss\u00e3o parlamentar de inqu\u00e9rito a terminar sem um documento final desde 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele ano uma queda de bra\u00e7o entre o relator, um deputado governista, e o presidente, integrante da oposi\u00e7\u00e3o, fez com que a CPMI do Banestado encerrasse suas atividades sem votar suas conclus\u00f5es. A comiss\u00e3o investigava a evas\u00e3o de divisas por meio das chamadas contas CC-5, mecanismo usado para enviar ilegalmente bilh\u00f5es de reais ao exterior a partir do Banco do Estado do Paran\u00e1. Foi a primeira CPI, ao menos neste s\u00e9culo, a chegar ao fim sem um relat\u00f3rio final.<\/p>\n\n\n\n<p>Em comum, esses oito colegiados esbarraram em uma combina\u00e7\u00e3o de impasse pol\u00edtico, manobras regimentais, mudan\u00e7a de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, falta de qu\u00f3rum ou rejei\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do parecer do relator.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que se perde sem o relat\u00f3rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando uma CPI ou CPMI termina sem aprovar relat\u00f3rio final, como ocorreu no caso do INSS, ela sai de cena sem sua conclus\u00e3o formal. \u00c9 esse documento que re\u00fane os achados da investiga\u00e7\u00e3o, organiza os pedidos de indiciamento e deve ser encaminhado, com as provas coletadas, ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, \u00e0 Advocacia-Geral da Uni\u00e3o e a outras autoridades competentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem essa chancela, a comiss\u00e3o perde capacidade de falar institucionalmente com uma s\u00f3 voz, reduz o peso pol\u00edtico de suas conclus\u00f5es e dificulta o monitoramento dos desdobramentos, j\u00e1 que a legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea que os \u00f3rg\u00e3os acionados informem as medidas adotadas e o andamento dos processos abertos a partir das recomenda\u00e7\u00f5es da CPI.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INSS: o exemplo mais recente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Encerrada na madrugada de s\u00e1bado (28), a CPMI do INSS foi criada para investigar fraudes no pagamento de aposentadorias e pens\u00f5es, com foco nos descontos associativos indevidos sobre benef\u00edcios previdenci\u00e1rios. Funcionou por 180 dias e terminou depois de uma reuni\u00e3o de quase 17 horas, marcada por confrontos pol\u00edticos e por uma disputa aberta com o STF ao longo dos trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio de Alfredo Gaspar (PL-AL), com cerca de 4,4 mil p\u00e1ginas, pedia o indiciamento de 216 pessoas, entre elas o ex-ministro Carlos Lupi, o senador Weverton Rocha, o banqueiro Daniel Vorcaro e F\u00e1bio Lu\u00eds Lula da Silva, o Lulinha. O texto foi derrotado por 19 votos a 12. Em seguida, o presidente da comiss\u00e3o, senador Carlos Viana (Podemos-MG), encerrou os trabalhos sem submeter a voto o relat\u00f3rio alternativo apresentado pelos governistas, cuja linha era oposta \u00e0 do relator. Assinado pelo deputado Paulo Pimenta, o texto pedia o indiciamento, dentre outros, do ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado como figura central do esquema.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, a comiss\u00e3o terminou sem posi\u00e7\u00e3o oficial \u00fanica. Ainda que parlamentares dos dois blocos tenham<a href=\"https:\/\/www.congressoemfoco.com.br\/noticia\/117677\/cpmi-do-inss-oposicao-e-governistas-levarao-relatorios-opostos-ao-stf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;anunciado o envio de seus textos \u00e0 Pol\u00edcia Federal e ao STF<\/a>, os documentos seguir\u00e3o sem o peso pol\u00edtico e institucional de um relat\u00f3rio formalmente aprovado pelo colegiado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bets: vota\u00e7\u00e3o esvaziada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Senado, a CPI das Bets, encerrada em junho de 2025, tornou-se um dos exemplos mais claros de comiss\u00e3o que chega ao fim sem resultado formal mesmo depois de concluir seu parecer. Criada para apurar o mercado de apostas on-line e seus efeitos, a CPI investigou suspeitas de lavagem de dinheiro, propaganda enganosa, explora\u00e7\u00e3o de jogos ilegais e o impacto social das plataformas sobre fam\u00edlias vulner\u00e1veis. A relatora, Soraya Thronicke (Podemos-MS), prop\u00f4s o indiciamento de 16 pessoas e duas empresas, al\u00e9m de um pacote de 20 medidas legislativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os principais alvos estavam as influenciadoras Virginia Fonseca e Deolane Bezerra, acusadas de propaganda enganosa, estelionato, lavagem de dinheiro e promo\u00e7\u00e3o de plataformas irregulares. Mesmo assim, o texto foi derrotado por 4 votos a 3, em uma reuni\u00e3o esvaziada. Depois da rejei\u00e7\u00e3o, Soraya anunciou que enviaria diretamente o conte\u00fado apurado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, \u00e0 Pol\u00edcia Federal e ao Minist\u00e9rio da Fazenda. O caso exp\u00f4s uma diferen\u00e7a importante: ali, n\u00e3o faltou relat\u00f3rio; faltou maioria pol\u00edtica para transform\u00e1-lo em conclus\u00e3o oficial da comiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MST e manipula\u00e7\u00e3o do futebol: relat\u00f3rios vencidos pelo prazo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na C\u00e2mara, a CPI do MST e a CPI da Manipula\u00e7\u00e3o de Resultados no Futebol tiveram desfechos diferentes, mas chegaram ao mesmo ponto: o relat\u00f3rio n\u00e3o virou documento final. No caso do MST, encerrado em setembro de 2023, o parecer de Ricardo Salles (Novo-SP) chegou a ser apresentado, com 11 pedidos de indiciamento e propostas alinhadas \u00e0 pauta da bancada ruralista, mas um pedido coletivo de vista travou a delibera\u00e7\u00e3o e o prazo expirou sem prorroga\u00e7\u00e3o autorizada por Arthur Lira (PP-AL).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta foi a segunda comiss\u00e3o a investigar o MST a terminar os trabalhos sem aprovar um relat\u00f3rio final. Em 2010, a CPMI que apurava suspeitas de irregularidades atribu\u00eddas ao movimento chegou ao fim cercada de confus\u00e3o e disputa pol\u00edtica. O relator, deputado Jilmar Tatto (PT-SP), apresentou relat\u00f3rio rejeitando as den\u00fancias feitas contra a entidade. Mas a reuni\u00e3o para vota\u00e7\u00e3o foi cancelada por falta de qu\u00f3rum. A oposi\u00e7\u00e3o, liderada por integrantes da bancada ruralista, tentou prorrogar os trabalhos, que acabaram sem desfecho.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na CPI da Manipula\u00e7\u00e3o do Futebol, tamb\u00e9m em 2023, o relator Felipe Carreras (PSB-PE) apresentou seu texto, mas quatro deputados pediram vista na reta final. Sem tempo h\u00e1bil para nova aprecia\u00e7\u00e3o, a comiss\u00e3o expirou. Em ambos os casos, o rel\u00f3gio e a disputa pol\u00edtica se sobrepuseram ao esfor\u00e7o de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Carf e M\u00e1fia do Futebol: esvaziamento e press\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, a C\u00e2mara registrou dois outros exemplos de comiss\u00f5es que terminaram sem entregar uma conclus\u00e3o oficial. A CPI da M\u00e1fia do Futebol, criada para investigar desdobramentos do esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o na Fifa, teve relat\u00f3rio apresentado no \u00faltimo dia \u00fatil, mas n\u00e3o votado por falta de qu\u00f3rum em uma reuni\u00e3o de madrugada. Depois, o ent\u00e3o presidente da comiss\u00e3o atribuiu o fracasso ao ambiente pol\u00edtico daquele ano, marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff, pelo afastamento de Eduardo Cunha e pelo chamado recesso branco.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano, a CPI do Carf tamb\u00e9m acabou sem relat\u00f3rio final. A comiss\u00e3o investigava supostas fraudes no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e operou sob queixas de dificuldade de acesso a informa\u00e7\u00f5es e resist\u00eancia \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o de personagens centrais. A dois dias do fim do prazo, o relator ainda n\u00e3o havia apresentado parecer e pedia prorroga\u00e7\u00e3o. Depois do encerramento, deputados falaram em lobby e blindagem de empres\u00e1rios e agentes pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Banestado: o precedente mais emblem\u00e1tico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O caso mais did\u00e1tico continua sendo o da CPMI do Banestado, encerrada em dezembro de 2004. A comiss\u00e3o investigava a evas\u00e3o de divisas por meio das contas CC-5, usadas para enviar ilegalmente bilh\u00f5es de reais ao exterior a partir do Banco do Estado do Paran\u00e1. O relat\u00f3rio do deputado Jos\u00e9 Mentor (PT-SP) sugeria o indiciamento de dezenas de pessoas, inclusive nomes de peso do sistema financeiro, mas o texto n\u00e3o foi votado.<\/p>\n\n\n\n<p>O impasse nasceu de uma disputa aberta entre o relator e o presidente da CPMI, senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), que alegava haver acordo para encerrar os trabalhos naquele ano e apresentou um voto alternativo. No fim, a documenta\u00e7\u00e3o acumulada foi enviada ao Minist\u00e9rio P\u00fablico sem a chancela de um relat\u00f3rio aprovado, o que levou a cr\u00edticas p\u00fablicas da OAB, que classificou o desfecho como sinal de impunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Diferentes caminhos, um mesmo destino<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esses casos mostram que n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico caminho para uma CPI ou CPMI terminar sem relat\u00f3rio. \u00c0s vezes, como no Banestado, o que trava a comiss\u00e3o \u00e9 a guerra entre presidente e relator. Em outras, como a CPI do MST e a da Manipula\u00e7\u00e3o do Futebol, o parecer fica pronto, mas morre por pedido de vista, falta de tempo ou aus\u00eancia de prorroga\u00e7\u00e3o. Em situa\u00e7\u00f5es como a das Bets e a do INSS, o texto chega a ser votado, mas \u00e9 derrotado politicamente. J\u00e1 em epis\u00f3dios como Carf e M\u00e1fia do Futebol, esvaziamento, calend\u00e1rio e press\u00e3o impedem que a investiga\u00e7\u00e3o se converta em documento final.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dois relat\u00f3rios, nenhum aprovado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para o presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana, a comiss\u00e3o terminou sem relat\u00f3rio por causa da &#8220;blindagem&#8221; da base governista. &#8220;Esse relat\u00f3rio agora, ele ao ser rejeitado, \u00e9 uma blindagem absoluta da base do governo para manter as pessoas que roubaram os aposentados infelizmente longe da justi\u00e7a. O que n\u00f3s vimos hoje foi a blindagem que come\u00e7ou exatamente quando a CPMI n\u00e3o atendeu aos interesses do governo&#8221;, disse o senador, ap\u00f3s a conclus\u00e3o da reuni\u00e3o que rejeitou as conclus\u00f5es do relator.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o deputado Paulo Pimenta, autor do relat\u00f3rio paralelo, reclamou do procedimento do presidente da CPMI, de n\u00e3o submeter o seu documento \u00e0 vota\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a derrubada do parecer do relator. &#8220;Este documento que carrego \u00e9 o verdadeiro relat\u00f3rio, entendido pela maioria dos parlamentares como aquele que aponta os reais culpados pelos golpes cometidos contra os aposentados de todo o Brasil, em uma trama institu\u00edda no governo Bolsonaro&#8221;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Com informa\u00e7\u00f5es do Congresso em Foco<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem aprovar um texto final, CPMI que investigou descontos indevidos em benef\u00edcios do INSS repete destino de outros colegiados marcados por impasse e disputa pol\u00edtica. 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